Grandes empresas e instituições financeiras brasileiras já trabalham com um cenário mais desafiador para 2027. A combinação de juros elevados, alto endividamento das famílias e perda de força do consumo tem levado executivos a adotar uma postura mais cautelosa diante das perspectivas para a economia no próximo ano.
O cenário foi identificado a partir das teleconferências de resultados do segundo trimestre de 2026 das empresas que integram o Ibovespa. Levantamentos sobre as declarações dos executivos mostram preocupação com a possibilidade de crescimento econômico menor e com os impactos da taxa básica de juros sobre investimentos, crédito e consumo.
Entre os principais problemas apontados está o aumento da inadimplência, que já começa a atingir até despesas consideradas essenciais, como contas de água e energia elétrica.
Endividamento começa a afetar contas básicas
Empresas do setor de serviços públicos relatam dificuldades crescentes no pagamento das contas por parte dos consumidores.
Na CPFL Energia, a inadimplência passou de 0,82% no segundo trimestre de 2025 para 1,08% no mesmo período deste ano. Segundo o presidente da companhia, Gustavo Estrela, o aumento dos atrasos tem relação com a dificuldade das famílias em manter as contas em dia.
A empresa tem utilizado cortes no fornecimento como uma das principais medidas para controlar os índices de inadimplência.
A Copasa também identifica um cenário considerado desafiador. A companhia afirma ter reforçado ações de cobrança e ampliado as alternativas de negociação para tentar reduzir os atrasos nos pagamentos.
Para o professor de economia do Insper Marcelo Kfoury, o elevado endividamento pode fazer com que as famílias tenham de escolher quais despesas conseguem pagar.
Segundo ele, consumidores comprometidos com empréstimos, cartão de crédito e outras dívidas acabam tendo menos recursos disponíveis para despesas básicas, o que aumenta a pressão sobre o orçamento doméstico.
Bancos veem 2027 com maior preocupação
O setor financeiro também demonstra preocupação com o próximo ano. Executivos de instituições como BTG Pactual e Santander avaliam que o ambiente econômico de 2027 tende a ser mais complexo, principalmente devido ao nível de endividamento das famílias e do governo.
O presidente do BTG Pactual, Roberto Sallouti, afirmou que o mercado começa a formar um consenso de que o próximo ano poderá apresentar dificuldades maiores.
A avaliação é de que a combinação entre dívida elevada e juros altos pode atingir diferentes setores da economia, afetando tanto as decisões de investimento das empresas quanto a capacidade de consumo das famílias.
Varejo sente pressão sobre o consumo
O comércio também já ajusta suas estratégias diante da perspectiva de um consumidor mais cauteloso.
Empresas como Lojas Renner e Assaí Atacadista apontam pressão sobre o consumo provocada pelo nível elevado da Selic.
No Assaí, a estratégia inclui redução de investimentos e adiamento de determinados projetos. Segundo o presidente da companhia, Belmiro de Figueiredo Gomes, a empresa está priorizando a redução do endividamento e adotando maior cautela na expansão.
Apesar do cenário mais difícil, o grupo pretende ampliar um modelo de lojas que reúne serviços como farmácias e eletropostos.
Na educação, a Yduqs também considera que 2027 deverá apresentar condições macroeconômicas semelhantes às de 2026, com renda mais apertada e famílias altamente endividadas.
A empresa, porém, vê uma oportunidade específica para o setor, já que o calendário de 2027 não terá eventos como Copa do Mundo e eleições presidenciais, que podem alterar o comportamento do consumidor e aumentar a incerteza em determinados períodos.
Itaúsa fala em possibilidade de “pequena recessão”
A preocupação com a desaceleração também aparece entre grandes grupos empresariais.
Alfredo Setubal, presidente da Itaúsa, afirmou que a economia brasileira vem perdendo ritmo mesmo diante de medidas destinadas a estimular o consumo e facilitar a renegociação de dívidas.
O executivo avaliou que o elevado endividamento das famílias poderá resultar em menor consumo e afirmou que as empresas controladas pela holding estão sendo orientadas a trabalhar com orçamentos mais moderados e cautelosos.
Setubal chegou a classificar o cenário esperado como uma possível “pequena recessão”, avaliação semelhante à manifestada recentemente pelo economista Armínio Fraga.
Selic continua no centro das preocupações
Um dos principais fatores por trás da cautela das empresas é a permanência da Selic em patamar elevado.
A taxa básica de juros está em 14% ao ano, e o ciclo de redução dos juros tem sido mais lento do que o esperado anteriormente.
No início de 2026, havia expectativas de que a Selic pudesse cair mais rapidamente. Entretanto, mudanças no cenário internacional, incluindo os efeitos da guerra no Irã sobre o mercado de petróleo, elevaram as preocupações com a inflação e dificultaram uma redução mais acelerada dos juros.
Juros elevados encarecem empréstimos e financiamentos, aumentam o custo das dívidas das empresas e dificultam novos investimentos. Ao mesmo tempo, reduzem a capacidade de consumo das famílias que já possuem parte significativa da renda comprometida com prestações e juros.
Endividamento das famílias bate recorde
O nível de endividamento dos brasileiros é outro fator de preocupação.
Segundo dados da Confederação Nacional do Comércio (CNC), 82% das famílias estavam endividadas em julho, o maior percentual registrado na série. Entre elas, aproximadamente 30% estavam inadimplentes, enquanto 12% afirmavam não ter condições de quitar as dívidas.
Esse cenário pode provocar um efeito de desaceleração no consumo ao longo de 2027. Com uma parcela maior da renda comprometida com dívidas, as famílias tendem a reduzir compras e priorizar despesas consideradas essenciais.
Para as empresas, o impacto ocorre em duas frentes: ao mesmo tempo em que os juros aumentam o custo para financiar suas próprias operações, o consumidor endividado passa a gastar menos.
Mercado reduz expectativas para o crescimento
As projeções do mercado também apontam para uma economia crescendo em ritmo mais lento.
De acordo com o Boletim Focus citado na reportagem, a expectativa é de que o Produto Interno Bruto (PIB) cresça 1,5% em 2027, enquanto a previsão para 2026 permanece em 1,98%.
Para a Selic, a estimativa é de encerramento de 2027 em 12% ao ano.
O professor de finanças da Fundação Getulio Vargas (FGV), Joelson Sampaio, explica que a manutenção de juros elevados por um período prolongado afeta diretamente as empresas. Segundo ele, a Selic interfere tanto nas decisões de investimento quanto no custo das dívidas e nas receitas, já que o consumo das famílias também fica comprometido.
Empresas adotam postura mais cautelosa
Diante desse cenário, grandes companhias estão revendo planos e priorizando o controle financeiro.
A estratégia inclui redução de investimentos, controle do endividamento, maior atenção à inadimplência e revisão de projetos de expansão.
Apesar das previsões mais cautelosas, o cenário não é uniforme entre os setores. Algumas empresas ainda identificam oportunidades de crescimento, mas a orientação predominante entre os executivos é trabalhar com maior prudência diante das incertezas econômicas.
Com juros ainda elevados e grande parte das famílias comprometida com dívidas, o comportamento do consumidor será um dos principais fatores para determinar a intensidade da desaceleração econômica em 2027.














