As Forças Armadas da China anunciaram neste sábado (25) a abertura de uma investigação contra Zhang Youxia, general de mais alta patente do país depois do presidente Xi Jinping, sob a acusação de ter “minado” a autoridade do chefe de Estado e violado normas centrais do Partido Comunista Chinês (PCC).
As informações foram detalhadas em um editorial publicado no PLA Daily, jornal oficial do Exército Popular de Libertação (EPL), e repercutidas pela agência estatal Xinhua. O texto também confirma a investigação contra Liu Zhenli, chefe do Departamento do Estado-Maior Conjunto da Comissão Militar Central (CMC), órgão máximo das Forças Armadas chinesas.
Segundo o editorial, os dois generais “traíram profundamente a confiança que lhes foi depositada” e “violaram gravemente o sistema de responsabilidade suprema que reside no presidente da CMC”, cargo ocupado por Xi Jinping.
Acusações de corrupção e deslealdade política
Zhang Youxia, de 75 anos, ocupa o cargo de primeiro vice-presidente da CMC, sendo considerado o “número dois” da hierarquia militar chinesa. Ele também integra o Politburo, o segundo escalão mais poderoso do PCC, composto por 24 membros.
O texto oficial acusa Zhang e Liu de “agravar problemas políticos e de corrupção que ameaçam a autoridade absoluta do Partido sobre as Forças Armadas”, além de “manchar a imagem e a autoridade da liderança da Comissão Militar Central”.
De acordo com o editorial, as ações atribuídas aos dois generais teriam causado “danos graves” ao fortalecimento da lealdade política no Exército, ao ambiente interno das Forças Armadas e à preparação geral para o combate, com impactos negativos para o Partido, o Estado e o aparato militar.
Purgas militares e discurso anticorrupção
O PLA Daily reforça que as investigações fazem parte da política de tolerância zero contra a corrupção promovida por Xi Jinping desde que assumiu o poder, em 2012.
“Ficou demonstrado que, quanto mais o Exército combate a corrupção, mais forte e puro ele se torna, com maior capacidade de combate”, afirma o editorial, acrescentando que a erradicação profunda da corrupção tornaria as Forças Armadas mais confiantes e eficientes.
Aliado histórico de Xi sob suspeita
Zhang Youxia era considerado uma figura-chave no projeto de modernização das Forças Armadas chinesas e, até recentemente, um dos aliados militares mais próximos de Xi Jinping. A proximidade entre ambos remonta à geração anterior: os pais de Zhang e Xi lutaram juntos durante a guerra civil chinesa que levou à fundação da República Popular da China, em 1949.
Segundo fontes anônimas citadas pelo South China Morning Post, de Hong Kong, Zhang teria sido detido na última segunda-feira. As acusações envolveriam corrupção, falhas no controle de subordinados e familiares, além da omissão em comunicar problemas à cúpula do PCC de forma imediata.
Zhang e Liu, ambos heróis de guerra condecorados e os únicos membros da atual liderança da CMC com experiência real de combate — adquirida durante os confrontos com o Vietnã no fim dos anos 1970 —, chamaram atenção ao não comparecerem a um seminário do Partido presidido por Xi nesta semana, o que intensificou especulações sobre seu afastamento.
Reestruturação do alto comando militar
Desde o início de seu governo, Xi Jinping promove sucessivas purgas no alto escalão das Forças Armadas, com o duplo objetivo de combater a corrupção e reforçar a lealdade política dos comandantes ao PCC e à sua liderança pessoal.
Durante o terceiro mandato de Xi, iniciado em 2022, o número de integrantes da Comissão Militar Central foi reduzido de sete para quatro, tornando-a a mais enxuta desde o fim do período maoísta, em 1976.
Nos últimos anos, diversos comandantes, comissários políticos e até ministros da Defesa foram afastados. O ponto mais recente ocorreu em outubro do ano passado, quando autoridades chinesas anunciaram a expulsão do Exército e do PCC de até nove generais.
Casos anteriores reforçam rigor das investigações
Entre os episódios mais notórios está o de He Weidong, que chegou a ocupar o posto de “número três” do Exército após rápida ascensão em 2022. Ele desapareceu da cena pública em março de 2025 e posteriormente foi formalmente acusado de corrupção.
A destituição de He foi considerada histórica, pois ele se tornou o primeiro vice-presidente uniformizado da CMC a perder o cargo em exercício em quase 60 anos. O último caso semelhante havia ocorrido em 1967, durante a Revolução Cultural.
Outros nomes de destaque recentemente expurgados incluem o almirante Miao Hua, os ex-ministros da Defesa Wei Fenghe e Li Shangfu, além dos comandantes da Força de Foguetes Li Yuchao e Wang Houbin.
A investigação contra Zhang Youxia representa mais um capítulo do processo de consolidação de poder de Xi Jinping sobre o aparato militar chinês, em um momento de crescente tensão geopolítica e de reforço do controle político sobre as Forças Armadas.
















