Para uma parcela crescente dos brasileiros, a aposentadoria deixou de significar o fim da vida profissional. Em meio ao aumento do custo de vida, responsabilidades familiares e ao desejo de manter uma rotina ativa, cada vez mais aposentados seguem trabalhando para complementar a renda e preservar a saúde física e mental.
É o caso do fiscal de obras Deusdédit Rodrigues, 70, aposentado desde 2017. Mesmo após conquistar o benefício, ele nunca deixou o mercado de trabalho. Atuou na construtora MBigucci até 2020, interrompeu as atividades durante a pandemia e retornou em 2022, função que mantém até hoje. A rotina começa cedo: acorda por volta das 4h da manhã e enfrenta diariamente dois ônibus e metrô para chegar ao trabalho.
“O salário de aposentadoria é uma ajuda, não dá para a gente ficar parado. Tem que reforçar o lado financeiro, senão não dá para suprir”, afirma.
Segundo dados do IBGE, em 2024 cerca de 24,4% das pessoas com 60 anos ou mais estavam ocupadas, o maior nível da série histórica iniciada em 2012, desconsiderando o período da pandemia. Entre os homens idosos, 34,2% permaneciam no mercado de trabalho; entre as mulheres, 16,7%. Na faixa etária acima dos 70 anos, 15,7% dos homens e 5,8% das mulheres ainda trabalhavam.
Renda insuficiente e impactos familiares
Além da busca por renda extra, muitos aposentados lidam com limitações impostas pelas regras de benefícios sociais. Deusdédit, por exemplo, vive com a esposa de 66 anos, que não contribuiu para o INSS. A renda dele impede que ela tenha acesso ao BPC (Benefício de Prestação Continuada).
“Eu acho isso um absurdo. Ela me ajudaria muito se se aposentasse”, diz.
Apesar de não exigir esforço físico intenso, o trabalho é considerado estressante. Deusdédit é responsável pela fase final dos apartamentos antes da entrega aos compradores, supervisionando acabamentos e coordenando equipes terceirizadas em prédios com cerca de 150 unidades.
Pesquisa confirma tendência
Levantamento da Serasa, em parceria com o instituto Opinion Box, mostra que a prática é comum: 60% dos aposentados continuam trabalhando. Entre os entrevistados, 63% afirmam que seguem na ativa para complementar a renda, 57% para manter uma vida dinâmica e 32% para se sentirem produtivos. A pesquisa ouviu 952 pessoas entre dezembro e janeiro.
O estudo também aponta fragilidade financeira: metade dos entrevistados já precisou recorrer ao crédito para pagar despesas, 35% usam empréstimos para gastos essenciais e 46% afirmam que o valor da aposentadoria não é suficiente para manter o padrão de vida anterior.
Histórias de sobrecarga e resiliência
A doméstica Maria Aparecida Moura, 66, conhecida como Cida, se aposentou por idade com um salário mínimo após décadas de trabalho informal. No entanto, a renda se tornou insuficiente diante de responsabilidades familiares. Ela cuida da neta, que perdeu a mãe após um AVC, e do ex-marido, que ficou acamado após sofrer quatro AVCs.
“Hoje em dia não dá para viver só com aposentadoria. Aposentado não sobrevive”, afirma.
Mesmo com problemas de saúde, como diabetes e dores nas pernas, Cida segue trabalhando como babá para a mesma família e não sabe quando conseguirá parar.
Desigualdades persistem
Apesar de o rendimento médio dos idosos ocupados ser superior à média geral dos trabalhadores, desigualdades permanecem. Em 2024, o rendimento médio real das pessoas com 60 anos ou mais foi de R$ 3.108. Entre os homens, o valor chegou a R$ 4.071; entre as mulheres, R$ 2.718.
A principal forma de inserção dos idosos no mercado é o trabalho por conta própria, que representa 43,3% das ocupações nessa faixa etária.
O que diz a legislação
De acordo com a advogada trabalhista Priscila Arraes, aposentados podem continuar trabalhando com carteira assinada, mantendo todos os direitos trabalhistas.
“Os direitos decorrem da relação de emprego, não da aposentadoria”, explica.
A exceção é a aposentadoria por incapacidade permanente, que é suspensa caso haja retorno ao trabalho. Já aposentados especiais podem trabalhar, desde que não se exponham novamente aos agentes nocivos que deram origem ao benefício.
Mesmo trabalhando, o aposentado continua contribuindo ao INSS, mas não tem direito à revisão do valor da aposentadoria nem a benefícios como auxílio por incapacidade temporária.
Trabalhar por necessidade ou escolha
Aos 84 anos, o caminhoneiro Lourival Vieira segue na estrada há mais de duas décadas após se aposentar. Já foi assaltado sete vezes e chegou a ser sequestrado com uma carga avaliada em R$ 1,8 milhão, mas não pensa em parar.
“Meu espírito não gosta de ficar parado”, diz.
Parte da renda é destinada a um projeto social mantido pela esposa. “Quando eu posso ser útil para alguém, eu fico feliz.”
A contadora Mônica Acencio, 58, aposentada desde 2019, também optou por continuar na mesma empresa. Segundo ela, a decisão envolve tanto o aspecto financeiro quanto o estilo de vida.
“Algumas amigas minhas que se aposentaram começaram a ficar estressadas, com início de depressão. Eu vou trabalhar enquanto tiver saúde.”
Aposentadoria em movimento
Para a jornalista Regina Diniz, 63, aposentada no ano passado, parar nunca foi uma opção. Ela segue à frente da própria agência de comunicação, atua com práticas integrativas e prestou o Enem para cursar Filosofia em uma universidade pública.
“Vida divertida e animada. Fluir com as oportunidades e vontade de sempre aprender. Em movimento sempre.”
A realidade dos aposentados que continuam trabalhando revela um Brasil onde a longevidade vem acompanhada de desafios financeiros, mas também de disposição, reinvenção e desejo de permanecer ativo — por necessidade, escolha ou ambos.
















